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Objetivo:Identificar e descrever o perfil vocal de extorsionários- seqüestradores cujas vozes foram armazenadas no Banco de Vozes da Divisão Anti-Sequestro do estado do Rio de Janeiro. Métodos: As 259 vozes foram avaliadas e selecionadas com base em 30 parâmetros e marcadores utilizados para identificação de locutor, através de análise acústica e percepto-auditiva. Resultados: Descoordenação pneumofonoarticulatória, modulação restrita, elevação do pitch, imprecisão articulatória e a ressonância faríngea foram os marcadores mais importantes. A velocidade de fala sofreu alterações relacionadas ao estágio de andamento do seqüestro. Conclusão: Foram encontradas características comunicativas comuns no grupo estudado. A descoordenação pneumofonoarticulatória foia alteração que mais se destacou.
Autora: Mônica Azzariti Orientadores: Maria do Carmo Gargaglione e Domingos Sávio de Oliveira
INTRODUÇÃO
A fala depende primariamente das características individuais, isto é, particularidades anatomofisiológicas e de condições psicossociológicas (tipo psicológico, status social, língua utilizada, etc.). Em seguida observamos que essa fala depende das condições dentro das quais ela é produzida: o que falamos, para quem falamos, o contexto em que essa fala se encontra, e não menos importante: o objetivo desta fala.1
Troubetzkoy diz que toda manifestação falada apresenta três faces. A face representativa, que depende daquilo que o sujeito fala. A face expressiva, que depende da maneira pelo qual o sujeito sente o que diz e a face apelativa que depende do interlocutor.
O estudo da comunicação humana possibilitou conhecer os sistemas responsáveis por todo o processo, facilitando a compreensão dos distúrbios, alterações e marcadores que traduzem informações capazes de categorizar o locutor.
A emissão da voz de um indivíduo é um fenômeno que comporta grandes variações, dentre elas ressaltamos as circunstâncias de sua utilização e a intencionalidade do sujeito. A avaliação do comportamento vocal de um grupo específico tem como objetivo traçar operfil vocal utilizado pelos indivíduos, identificando e descrevendo os principais parâmetros vocais e desvios encontrados. Podendo-se assim elencar os marcadores comunicativos que caracterizam o grupo estudado2.
Tradicionalmente a área da saúde tem sido privilegiada com os avanços da ciência, porém, desde que os meios de comunicação trouxeram facilidades tecnológicas, a perpetuação de diálogos e discursos passou a direcionar o interesse de pesquisadores da área decomunicação humana para outras áreas, sendo a Segurança Pública uma das beneficiárias dos avanços conquistados.
Muitos são os profissionais da voz que apresentam necessidades e características distintas de uso do seu aparelho fonador. Professores, atores, locutores, operadores de telemarketing e políticos são alguns exemplos de comportamentos vocais característicos.Todos esses grupos, exaustivamente estudados, apresentam um perfil vocal e características próprias que se desenvolveram de acordo com as necessidades exigidas pela profissão3. Criminosos também apresentam um perfil vocal que os identifica e diferencia, cuja pesquisa apresentará ganhos e desdobramentos sociais nos estudos que se referem à segurança pública, tema de interesse de todos.
A voz é o espelho do momento de vida de uma pessoa, portanto, nada mais cristalino que o impacto do estado mental e emocional sobre a voz4. Aumento da tensão muscular, boca seca, fadiga vocal e alterações no padrão respiratório são sintomas causados pelo estresse3. O estresse e a ansiedade gerados pela prática deste crime em especial: extorsão mediante seqüestro, influenciam sobremaneira a produção vocal do indivíduo, neste caso o seqüestrador.
A eficiência da investigação policial vem crescendo com o advento da escuta telefônica, em especial quando se trata de casos de seqüestro e extorsão. Devido ao grande número de gravações armazenadas em meio analógico na DAS - Divisão Anti-Seqüestro do Rio de Janeiro - surgiu a necessidade de se estruturar um sistema de armazenamento e análise de arquivos de áudio.
Com o objetivo de consignar e preservar o material como fonte auxiliar de investigações futuras e também como prova de delito, surgiu a idéia de se organizar um banco de vozes. Este trabalho foi realizado por fonoaudiólogas. O sistema, além de proporcionarconfiabilidade e agilidade nas investigações, tornou-se um laboratório para o estudo dos aspectos vocais destes indivíduos.
O objetivo deste trabalho foi analisar o perfil vocal dos sujeitos praticantes da extorsão mediante seqüestro, em especial os negociadores. São eles que falam ao telefone durante a negociação do resgate.
MÉTODOS
Todo material utilizado, oriundo de escutas telefônicas autorizadas judicialmente, foi fornecido pela Divisão Anti-Seqüestro do Estado do Rio de Janeiro que autorizou a divulgação dos dados obtidos neste estudo.
A amostra deste estudo foi composta por 259 vozes masculinas, armazenadas em mídia tipo analógica (fitas k7), que foram inicialmente digitalizadas para viabilizar as análises percetivo-auditiva4,5 e acústica4,20,21 constantes no banco de vozes.
Para a realização das análises foram utilizados os seguintes recursos tecnológicos: Intel Pentiun D915 Dual Core 2.80 Ghz 2x2 MB L2 Cache- 800 FSB, Placa de som CREATIVE AUDIGY 2 NX, sistema operacional Windows XP Profissional; Notebook HP/Pavilion dv 1340BR, Fone de ouvido SONY com plug de ouro, Softwares: Adobe Audition, PRAAT, Visible Voice, Clear Voice Denoiser, Cut Live Forensic, SpeechPitch, Análise de Voz DSP.
Procedimentos
Após a edição dos arquivos de áudio selecionando-se apenas a voz do seqüestrador e descartando qualquer outra voz presente no arquivo, foram obtidas amostras de 15 minutos de cada indivíduo, levando-se em consideração os três estágios de um seqüestro, quesão momentos distintos e que para este estudo foram identificados da seguinte forma: 1ºestágio- momento inicial em que o seqüestrador faz contato com a família, 2º estágio- período da negociação, 3º estágio- gincana, onde o seqüestrador dá orientações para que ocorra o pagamento do resgate.
As vozes foram analisadas e selecionadas com base em 30 parâmetros de avaliação, sendo eles: . Estes parâmetros foram selecionados a partir de vasta pesquisa bibliográfica, levando-se em consideração os principais aspectos da avaliação fonoaudiológica.
A avaliação acústica foi complementar à avaliação perceptivo- auditiva. Alguns parâmetros foram descartados, pois não puderam ser analisados em todas as amostras.
RESULTADOS
Observou-se descoordenação pneumofonoarticulatória em 97% dos indivíduos, com velocidade de fala lenta no 1º estágio, adequada no 2º e acelerada no 3º em 92% dos casos. Modulação restrita, com ritmo repetitivo em 71%. A elevação do pitch durante o 3º estágio foi marcante, 100%. Imprecisão articulatória marcada por omissão de grupos consonantais encontrada em 85% das falas. O sistema de ressonância mais comum foi o faríngeo com foco nasal com 75% de incidência. Vale citar que a voz comprimida foi a mais comum encontrada no grupo, 57%.
Em relação à qualidade vocal foram encontradas as particularidades individuais dependentes da configuração anatômica. Porém, em relação ao mecanismo de utilização do aparato fono-articulatório, foram percebidas características comuns a essa prática de crime. No 1º estágio há uma tendência à diminuição da loudness, assim como a velocidade da fala, provavelmente motivada pela necessidade do seqüestrador de ser compreendido pela família da vítima. A loudness vai aumentando à medida que o seqüestro evolui do 1ºao 3º estágio. Seguem-se as ameaças e associada ao aumento da ansiedade, percebeu-se a constrição laríngea, o aumento do pitch e da velocidade da fala.
DISCUSSÃO
Entender o processo de desenvolvimento da comunicação humana é imprescindível para identificar o padrão de comunicação de grupos específicos. Sabe-se que a depender do grupo sócio-cultural em que o locutor está inserido, há marcadores comunicativos que o caracterizam. O estilo de comunicação do falante decorre de condições anatômicas e psicológicas, influências familiares, sociais e ambientais, e durante todo o seu processo de desenvolvimento são enriquecidos por novos aspectos vocais e lingüísticos, utilizados com a intenção de influenciar o interlocutor5.
A voz carrega informações sobre as dimensões e configurações anatomofisiológicas do trato vocal, esse conjunto de informações, combinadas entre si conferem características peculiares que identificam o falante e imprimem ao discurso, características psicoacústicas indicativas da emoção contida na mensagem13
A análise perceptiva auditiva representa um dos procedimentos subjetivos de avaliação da voz mais utilizados pelo fonoaudiólogo. A avaliação acústica diz respeito às medidas objetivas. Sabe-se que o valor de uma análise vocal está, em grande parte, nas habilidades auditivas do avaliador associadas aos achados objetivos acústicos2.
Há décadas os avanços em pesquisas fonoaudiológicas vêm contemplando a área da saúde. A comunicação humana está presente em todas as esferas da existência, tendo sido estudada desde os primórdios da humanidade e discutida filosoficamente e antropologicamente, o que nos faz pensar, com um olhar mais aberto, que a Fonoaudiologia é a profissão da comunicação.
Assim sendo, é imperativo abrir as portas da ciência fonoaudiológica para outras áreas de interesse e importância social, o que trará não só uma nova visão da Fonoaudiologia enquanto profissão, como também promoverá avanços jamais vistos na área forense.
CONCLUSÃO
A partir dos resultados descritos acima, foi possível traçar um perfil do grupo estudado. Apesar dos trinta parâmetros elencados, concluiu-se que a velocidade de fala, a coordenação pneumofonoarticulatória, a modulação, o pitch, o sistema de ressonância, aarticulação e a prosódia, são os marcadores mais significativos para a identificação da assinatura comunicativa do falante e, também de grupos que demandam da mesma atividade. O estudo ainda possui uma amostra reduzida por ser recente na Fonoaudiologia e,portanto, aberto a futuras modificações.
Através deste estudo concluiu-se que é extremamente necessária a análise do uso da voz deste grupo específico de falantes. Diferentemente de outras análises envolvendo indivíduos que utilizam a voz como ferramenta de trabalho, esta pesquisa não visa detectar as necessidades de treinamento vocal ou o risco vocal decorrente da sua utilização. O foco deste trabalho é entender a psicodinâmica vocal, seus traços distintivos e o uso da voz como ferramenta de ameaça e persuasão, numa esfera completamente diferente de atuação, a realidade do crime. As alterações encontradas são um farto material para futuras pesquisas, ampliando o campo de atuação do fonoaudiólogo especializado na ciência forense.
REFERÊNCIAS
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